Há algum tempo resolvi parar de ler jornais e de acompanhar os noticiários. Aliás, praticamente não assisto mais televisão.Confesso que, tempos atrás assistia novelas e alguns seriados, como se fosse uma necessidade básica de integração social, pra não ficar por fora do papo com os colegas de trabalho na hora do almoço. Hã... é... tudo bem, assumo a tentativa de dissimulação; assistia porque gostava mesmo.
Porém, em determinada fase da minha vida, quando comecei meu despertar para horizontes além da antena parabólica, uma certa vergonha de assumir que era telespectadora destes programas foi se apossando de mim. Até que finalmente, num ímpeto libertador, troquei a TV pelos livros e só então dei conta da tamanha perda de tempo com assuntos que não me acrescentavam absolutamente nada! Ao contrário, quando ouço pessoas comentando sobre o capítulo da novela, vejo quão negativa é a influência deste tipo de programa no comportamento social, banalizando atitudes no mínimo desprezíveis como traições, mentiras, trapaças, violência, e até mesmo assassinatos.
Os incontáveis programas de auditório, comandados por apresentadores de talento e/ou QI duvidoso, reeditaram a velha e desgastada fórmula música e performances e tornaram-se palcos para sensacionalismos baratos, enquanto outros servem de tanque para “lavar roupa-suja” de gente que precisa dividir suas crises domésticas com o Brasil todo. Ainda não cheguei à conclusão se é falta de dignidade ou reivindicação aos 15 minutos de fama profetizados por Andy Warhol.
E o que dizer sobre a proliferação dos reality-shows? Um modismo que vem satisfazer uma massa que se afeiçoou ao não pensar. Uma receita eficaz para fazer com que as pessoas se interessem cada vez mais em comentar e criticar a vida. Dos outros. E, obviamente isso ultrapassa o limite do próprio sofá, gerando análises incrivelmente fúteis sobre o flagra da cantora famosa, a roupa da vizinha, o carro do cunhado e outras infindáveis observações de total irrelevância para quem ouve, assim como para quem as profere. Ou se preferir a definição popular, a fofoca.
É lamentável o fato que entre as dez revistas mais lidas no Brasil sejam seis delas destinadas a invadir a privacidade e escarafunchar a vida alheia. É preocupante constatar que no “horário nobre” da TV aberta, em que se concentra a maior audiência televisiva, os programas sejam ou as lastimáveis novelas ou os telejornais recheados de notícias que pretendem mais impressionar que informar.
O que se pode esperar, em termos de consciência político-sócio-ambiental, de um povo que deglute satisfeito todas essas mazelas?
O poder da mídia é inquestionável e, portanto, traz consigo enorme responsabilidade, já que toda notícia ou matéria expressa uma versão de um fato e não propriamente o fato. Por incontáveis vezes, quando coloquei em dúvida a veracidade de alguma reportagem - mencionando que uma publicação nada mais é do que uma opinião pessoal e parcial de quem tem espaço na mídia ou paga por isso – invariavelmente ouvi a mesma resposta: “claro que é verdade, pois saiu no jornal!”. Dessa forma, a mídia detem a decisão de dominar ou instruir, de manipular ou esclarecer de impressionar ou informar. Perde, no entanto, valiosas oportunidades de agir em favor de melhorias do senso comum, de trabalhar para elevar os valores morais da população, de educar cidadãos, alertando sobre o impacto de suas atitudes no coletivo e orientar suas atitudes para o bem comum. Poderia ser sensacional, mas opta por ser sensacionalista.
Para alguns, após a minha decisão me tornei alienada, mal-informada. Bem, acreditando que o homem é produto do meio, penso que cada um possa ser responsável por moldar o seu meio, mediante as escolhas do que deixa influenciar a sua vida. Gentileza gera gentileza, assim como gente lesa gera gente lesa. Eu fico com a primeira turma.
No meu entender, as pessoas que não questionam a qualidade da atual mídia é que sofrem de alienação sobre o verdadeiro sentido da vida. Eu optei apenas por não mais servir de marionete.
