
Quando criança, freqüentei aulas de catecismo durante um bom tempo. Desde aquela época, mesmo sem condições de ter opinião formada sobre determinados assuntos e muito menos argumentar com adultos sobre eles, várias questões vagavam na minha mente enquanto ouvia a professora discorrer sobre os assuntos religiosos, como a vida eterna no céu (nossa, mas eu vou ficar lá pra sempre, fazendo o que?); a expulsão de Adão e Eva do Paraíso após comerem uma maçã (mas o que há de errado nisso, será que eu não devo mais comer maçãs?). Divagações infantis perante um amontoado de informações mal transmitidas. E foi justamente o assunto da maçã a fonte da minha primeira decepção com a religião católica. Naquele dia fiquei sabendo que Adão e Eva aceitaram, de uma serpente, uma maçã de uma tal árvore proibida, o que deixou Deus tão zangado com eles por terem desobedecido às suas ordens, que os expulsou do Paraíso. E mais, que a partir desse dia, todos os humanos nascem com o “pecado original”, por causa da desobediência daquele casal. Pausa para a minha perplexidade de criança...
Eu, na minha inocência infantil, pensei “gente, mas o que foi que eu fiz? Eu não fiz nada e já nasci sem chance alguma? Vou ter que carregar um pecado que não é meu?”. Em cinco minutos me fizeram acreditar que eu já nasci condenada a ser uma pecadora e que Deus é vingativo, inclusive com requintes de crueldade, afinal, que pai expulsa os filhos de casa porque fizeram uma “travessura”? Na época eu me senti perdida, hoje eu alimento uma certa revolta contra esse tipo de ensinamento. Ou melhor, esse tipo de dominação. Mais tarde ainda tentaram me explicar que o comer a maçã tinha um sentido figurativo, que o que eles fizeram foi sexo... aí azedou tudo de vez! Então, o que faz com que sejamos concebidos, o que possibilita a vida é um pecado? Isso significa que meus pais repetiram o erro de Adão e Eva e por isso eu herdei o pecado deles?
Meu Deus, como é possível uma religião embutir tanto medo em seus seguidores, desde crianças? Falo da religião católica, pois foi o modelo de educação que recebi, mas a maioria absoluta das religiões segue o mesmo preceito: a criação do conceito de pecado e a imposição do medo para assumir controle sobre os fiéis arrebanhados. A começar dessa palavra, que nos coloca em condição de um rebanho de ovelhas pastoreadas por homens, mortais e pecadores como qualquer outro (ou por vezes até mais, como frequentemente ficamos sabendo), mas que foram dotados por Deus (!) de poderes de absolvição dos pecados de terceiros.
E lá estive eu quando menina, como ovelha arrebanhada, fazendo primeira comunhão, crisma e me confessando a um homem de vestido que eu tinha brigado com minhas irmãs e desobedecido minha mãe. E logo depois de dois Pai Nosso e três Ave Marias rezados mecanicamente eu já estava livre dos meus “pecados”. Ah, que alívio! Não fosse isso eu estaria condenada a arder por toda a eternidade no fogo do inferno!
E que figura terrível pintam de Deus, um velho barbudo sentado numa poltrona, com seus caderninhos, um dourado para anotar as boas ações que você fizer e um preto para tudo de ruim que você aprontar! Esse Deus julgador, punitivo e vingativo, de quem devemos ter medo. "Deus castiga!" foi frase recorrente na minha infância. E como se Deus, na imensidão do Universo, tivesse tempo pra isso! Nosso juiz é a nossa própria consciência que, estando ligada a Ele, sabe em seu íntimo o caminho que deve seguir. Mas temos o livre-arbítrio, o direito de escolha e invariavelmente recorremos aos velhos caminhos errados, portanto, nós mesmos somos responsáveis por tudo o que acontece conosco. Isso é a lei de causa e consequência aplicada e não um castigo de Deus.
O pecado foi a pior invenção das religiões, que resulta, inevitavelmente, num veneno da alma: a culpa, que não nos leva a nenhum caminho positivo. O segredo de ouro é aprender a eliminar a palavra culpa do dicionário, substituindo-a por responsabilidade. Não sou culpada por isso, sou responsável por isso. Há uma grande diferença!
Felizmente hoje tenho consciência do quanto tentaram me iludir e me defino apenas como espiritualista, não seguindo religião alguma. E posso afirmar que estou bem mais perto de Deus do que jamais estive! O meu Deus é o nosso Criador, o Gerador da vida, que perdoa nossas falhas como uma mãe perdoa seu filho ainda criança, porque entende que ele é inocente na sua essência, apenas não sabe ainda discernir entre o certo e o errado.
Não há indícios de que tenha havido um pedido de fonte divina - seja Deus, Jesus, Buda, Alá... - para que fosse fundada uma religião, isso é uma distorção criada pelo homem. Ficar se apegando a dogmas falidos não ajuda ninguém a encontrar a verdade. A busca não é lá fora, não é no templo, nem nos livros... é só aquietar a mente e olhar pra dentro de si. É aí que mora o seu Deus.